Na Primeira Semana do Tempo Comum (Per Annum), Ofício das Leituras

O Ofício das Leituras da Quinta-feira da Primeira Semana do Tempo Comum trata da organização da natureza. A Criação é toda ordenada, maneira pela qual Deus se dá a conhecer aos homens. Ele quis, desde o início, que a Criação fosse toda bem medida, e isto não significa limitação do poder divino; pelo contrário, é expressão mais perfeita da sua liberdade completa.

Tal é o tema de ambas as leituras deste o Ofício: a primeira tomada do Livro do Eclesiástico, (42,15 – 43,13) e a segunda tomada do Discurso contra os gentios de Santo Atanásio. Nesta segunda leitura vemos o título “O Verbo do Pai tudo orna, dispõe e contém”, referindo-se à Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. De fato, o Responsório que segue a segunda leitura é tomado dos Provérbios (8, 22-30), no qual fala o próprio Verbo, a Sabedoria de Deus. No livro litúrgico em português este Responsório tem a sua beleza, mas eu gostaria aqui de copiar diretamente da Escritura, pois não só ele já é originalmente abreviado, como a necessidade de metrificar o texto obscureceu um ponto a sua luminosidade:

O Senhor me criou, como primícia de suas obras,
desde o princípio, antes do começo da terra.
Desde a eternidade fui formada,
antes de suas obras dos tempos antigos.
Ainda não havia abismo quando fui concebida,
e ainda as fontes das águas não tinham brotado.
Antes que assentados fossem os montes,
antes dos outeiros, fui dada à luz;
antes que fossem feitos a terra e os campos,
e os primeiros elementos da poeira do mundo,.
Quando ele preparava os céus, ali estava eu,
quando traçou o horizonte na superfície do abismo.,
quando firmou as nuvens no alto,
quando dominou as fontes do abismo,
quando impôs regras ao mar,
para que suas águas não transpusessem os limites,
quando assentou os fundamentos da terra,
junto a ele estava eu como artífice,
brincando todo o tempo diante dele.

O capítulo 8 dos Provérbios, do seu versículo 4 até seu fim (versículo 36), é um discurso do Verbo de Deus. Assim se aprende claramente que o Verbo, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, existe desde a eternidade, antes da Criação; é verdade, tornou-se homem quando encarnou no seio da Santíssima Virgem, mas existe desde antes dos séculos, como se professa no Credo.

Também na Terça-feira e na Quarta-feira desta mesma Primeira Semana do Tempo Comum, a segunda leitura do Ofício das Leituras tem por tema a Pessoa do Filho. Na Quarta-feira, a leitura do Tratado contra as heresias, de Santo Irineu, abre de modo direto:

Ninguém pode conhecer o Pai sem o Verbo de Deus, isto é, sem o Filho que o revela.

E o Responsório que a segue toma seu texto dos Evangelhos segundo São João e segundo São Mateus:

R. Ninguém jamais viu a Deus,
* Mas o Filho Unigênito, que está junto do Pai,
este o deu a conhecer.
V. Ninguém conhece o Pai, a não ser o próprio Filho
e aquele a quem o Filho o quiser revelar.
* Mas o Filho Unigênito, que está junto do Pai,
este o deu a conhecer.

Na Sexta-feira, a primeira leitura começa de onde havia parado na Quinta-feira, prosseguindo no Livro dos Provérbios (43,14-37) com o louvor da Criação. A segunda leitura, tomada mais uma vez de Santo Atanásio, retorna ao tema da organização da Criação com uma bela imagem:

O musicista, com uma harpa bem afinada, combina artisticamente os sons graves com os agudos e os médios, de modo a produzir uma só harmonia. Assim também, a Sabedoria de Deus, empunhando todo o universo como uma harpa, conjuga as coisas aéras com as terrenas e as celestes com as aéreas, ligando o todo com suas partes.

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Na Festa do Batismo do Senhor

Que grande valor devo dar à meditação do Batismo do Senhor. Em 2012 sua Festa litúrgica caiu no dia 9 de Janeiro no calendário do Rito Novo seguido no Brasil. Embora eu esteja um pouco atrasado ao escrever a este respeito (hoje já é dia 10), não posso deixar de anotar alguns pontos importantes sobre esta data.

No Ofício das Leituras desta Festa a segunda leitura é de um sermão de São Gregório de Nazianzo. Entre tantas belezas e aspectos importantes que eu provavelmente não saberia chegar a comentar, vejo diversas imagens.

Primeiro, naturalmente, a pomba, forma sob a qual manifestou-se o Espírito Santo naquele acontecimento. São Gregório nos lembra que também o anúncio do fim do Dilúvio teve o ingresso de uma pomba.

Segundo, três pares de imagens que contrastam (mas também unem) São João Batista e Nosso Senhor Jesus Cristo: a lâmpada e o Sol, a voz e a Palavra (o Verbo), o amigo e o Esposo.

Nos dias anteriores a esta Festa o Ofício das Leituras inclui outros textos que falam sobre o Espírito Santo e sobre o Batismo de Jesus. Na Liturgia do dia 11 de Janeiro (ou Sexta-feira depois do Domingo da Epifania), é de São Máximo de Turim o que lemos. Ele explica que celebramos o Batismo de Jesus pouco depois do Natal porque ambos os eventos ocorreram na mesma época, com diferença de anos. Também o dia do Batismo, segundo São Máximo, deveria ter o nome de Natal, porque também nele Cristo nasce:

No dia do Natal, Cristo nasceu entre os homens; hoje nasce pelos sinais sagrados; naquele dia, nasceu da Virgem; hoje é gerado pelos sinais do céu.

Na Hora Terça da Festa do Batismo, a leitura breve que se toma de Is 11, 1-3a precede um versículo dos mais breves e eloqüentes possíveis:

V. Ele deve crescer.
R. E eu diminuir.

São João Batista anuncia que sua própria pessoa deve diminuir, enquanto cresce a do Messias, lição de humildade que me parece perigosa de se considerar concluída, necessitando de prática constante e incansável, apesar de tão difícil. Não deixo, ainda, nunca, de me lembrar da simbologia inscrita nas datas de nascimento de São João Batista e de Nosso Senhor Jesus Cristo, considerando o Hemisfério Norte da Terra: o Precursor nasceu no fim de Junho, próximo ao solstício de Verão, quando o Sol chegou ao ápice e começa a diminuir (“eu devo diminuir”); o Messias nasceu no fim de Dezembro, próximo ao solstício de Inverno, quando o Sol chegou ao seu ponto mais baixo e começa a crescer (“Ele deve crescer”).

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Tendo parado de falar

Entre tantas coisas boas que ganhei com a internet, e entre as coisas ruins que ganhei com a internet, existem as coisas que ainda não sei se são boas ou ruins; que em alguns momentos achei boas, e depois achei más, alternadamente ótimas ou péssimas, e às vezes as tudo isso simultaneamente dependendo da situação.

Parar de escrever é uma delas; tanto parar quanto continuar. Aprendi com algumas pessoas que só é bom que escrevam aqueles que sabem escrever, e que, por serem tão numerosas as pessoas que sabem ler e escrever, um número excessivo dentre elas acha que sabe escrever, ou que está fazendo literatura, ou que vale alguma coisa mínima que seja. Aprendi que só têm valor as coisas escritas com muito conteúdo, muito denso e muito importante, que façam diferença não mínima, nem pequena, nem média, mas enorme, que sejam relevantes para os homens de hoje e do futuro; foi-me ensinado que menos que isso é inútil, ridículo e estúpido.

Isto me fez não escrever nada durante muitos meses, meses que se enfileiraram numa quantidade pequena de anos; mas, como anos são longos, esse tempo não é assim tão curto. Mesmo havendo quem gostasse de me ler, não houve mais o que pudessem ler, e deixei de escrever até mesmo o que eu mesmo fosse ler sozinho.

Ainda que o silêncio seja coisa muito valiosa, sei que não escrever nada tem também uma dimensão de inutilidade. Ficar sem falar nada pode ser ridículo. Mesmo que a alternativa seja mudar de assunto ou dizer algo inteiramente desconectado.

Digam que se escreve muita bobagem. Mas não digam que não é para escrever. Ou, no mínimo, abstenham-se de dizer aos outros como devem usar seu tempo. Sim, eu estou mandando. Devo estar.

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